23 views 5 min 0 Comment

Doação de corpos contribui para formação de profissionais da saúde na Unioeste

Anúncio

No laboratório de Anatomia da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), em Cascavel, a primeira lição não começa com ossos ou músculos. Começa com respeito. Antes do contato com as peças anatômicas, os estudantes ouvem que ali estão corpos que um dia tiveram rotina, família e escolhas. Nada naquele espaço existe por acaso.

A professora Célia Cristina Leme Beu, prefere dizer “corpo” ou “peça anatômica”. Evita a palavra “cadáver”, comum nos livros, mas que, para ela, parece afastar o lado humano da experiência. “Esses corpos só estão aqui porque alguém decidiu”, costuma explicar aos alunos. “Alguém que pensava e vivia como nós.”

É nesse encontro silencioso que começa a formação prática de estudantes de Medicina, Farmácia, Ciências Biológicas, Odontologia, Fisioterapia e Enfermagem. Cada curso passa pelo laboratório em momentos diferentes da graduação, mas todos dependem do mesmo aprendizado: compreender o corpo humano além das imagens e dos livros.

Anúncio

Tecnologias e simuladores ajudam, mas não substituem a experiência real. Cada corpo revela diferenças que não aparecem nos atlas anatômicos. Membranas difíceis de entender na teoria só fazem sentido quando vistas diretamente. A dissecação, ainda presente no currículo de Medicina da Unioeste, permite compreender o corpo em camadas, percepção essencial para quem futuramente realizará cirurgias ou atenderá emergências.

Durante muito tempo, os corpos utilizados no ensino vieram principalmente de situações em que não havia familiares para reclamá-los, conforme prevê a legislação brasileira. Hoje, universidades e sociedades científicas incentivam outro caminho: a doação voluntária em vida.

Na Unioeste, mais de quarenta pessoas já registraram intenção de doar o próprio corpo para estudo e pesquisa. Nos últimos meses, três doações foram efetivadas. Em dois casos, bastou que os familiares conhecessem o desejo manifestado em vida. No terceiro, o doador deixou uma escritura pública e um recado aos filhos pedindo que sua vontade fosse respeitada.

“A universidade só toma conhecimento da morte quando a família comunica. Por isso, conversar previamente é considerado o passo mais importante. Assim como na doação de órgãos, são os familiares que autorizam o encaminhamento do corpo” como conta a professora Céli.

A equipe de Anatomia tem buscado divulgar essa possibilidade, ainda pouco conhecida. Qualquer pessoa pode registrar a intenção de doação e comunicar a decisão à família. No campus Cascavel, cada doação contribui diretamente para a formação de profissionais que atuarão na própria região, renovando o acervo anatômico e ampliando as possibilidades de ensino.

Os rituais de despedida não são impedidos. Velórios e cerimônias acontecem normalmente, conforme a escolha da família. Depois, o corpo é preparado e passa a integrar o laboratório, onde pode contribuir com o aprendizado por muitos anos. Um dos corpos utilizados atualmente participa das aulas há mais de duas décadas e já foi estudado por alunos que hoje são professores da universidade.

Mais do que ensinar anatomia, o laboratório ensina ética. O respeito ao corpo é regra explícita e parte da formação profissional. Cada estrutura observada ali representa um gesto altruísta, alguém que decidiu continuar contribuindo com a sociedade mesmo após a própria vida.

Antes do médico atender, do fisioterapeuta reabilitar ou do enfermeiro cuidar, houve alguém que permitiu que eles aprendessem. Doar o corpo para a ciência transforma o fim em continuidade: um legado silencioso que permanece em cada profissional formado e em cada vida atendida com mais preparo. Uma escolha possível, feita ainda em vida, que transforma despedida em conhecimento.

Anúncio

Este conteúdo é protegido por direitos autorais. Você não pode copiar conteúdo desta página.