A experiência de Corbélia na redução da dependência do Bolsa Família ultrapassou as fronteiras do Paraná e chegou ao Mato Grosso do Sul. Nesta semana, a secretária municipal de Desenvolvimento Social, Chayene Conti, representou o município como palestrante no 4º Congresso dos Municípios de Mato Grosso do Sul.
Ela participou do evento ao lado do secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Fábio Pontes, em um encontro que reuniu gestores públicos, autoridades e técnicos de diversas cidades para discutir soluções e boas práticas na gestão pública.
Convidada para apresentar os resultados do programa de Inclusão ao Emprego desenvolvido no município, a secretária compartilhou a metodologia adotada pela equipe e os números alcançados desde o início do projeto. Em pouco mais de um ano, Corbélia reduziu em 29,56% o número de famílias dependentes do Programa Bolsa Família, saindo de 565 famílias beneficiárias em março de 2025 para 398 atualmente, resultado que representa a maior redução registrada entre os municípios paranaenses.
O número, que à primeira vista pode parecer apenas uma estatística, carrega histórias silenciosas de mudança, gente que trocou a previsibilidade do benefício pela certeza e dignidade de um emprego.

São 398 famílias que ainda dependem do programa. Outras, no entanto, começaram a sair dessa estatística. Não desapareceram, migraram. De uma planilha da assistência social para a folha de pagamento de alguma empresa da cidade ou da região.
A transição não é simples. Em Corbélia, 1.214 pessoas ainda vivem sob a proteção do Bolsa Família, o que representa 6,78% da população. Quase metade delas, 572 pessoas, está em idade produtiva. É justamente nesse intervalo que mora a possibilidade de mudança: quando a política pública deixa de ser apenas proteção e passa a ser ponte.
Nos bastidores desse movimento, há estratégia. O chamado “Inclusão ao Emprego” funciona como uma engrenagem discreta: mapeia dados, aproxima empresas, identifica perfis e tenta encaixar pessoas em vagas reais. Não se trata apenas de oferecer emprego, mas de reduzir a distância entre quem precisa trabalhar e quem precisa contratar.
A secretária de Desenvolvimento Social, Chayene Conti, resume o cenário com um contraste que ajuda a dimensionar o avanço local. “No estado do Paraná todo teve uma redução em geral de 9,57%. E o nosso município alcançou uma redução de 29,56%, a maior do Estado. Isso mostra que o nosso trabalho de inclusão ao emprego está gerando resultados”, afirma.

Na prática, o resultado coloca Corbélia entre os municípios com melhor desempenho no Paraná e mostra que o avanço é fruto de uma estratégia estruturada de inclusão ao emprego.
Os números ajudam a contar essa virada. Em 2025, Corbélia registrou 217 benefícios cancelados. Em 2026, até o momento, outros 50 foram encerrados. Cada desligamento pode significar situações diferentes: revisão cadastral, mudança de renda ou, no cenário mais desejado, a inserção da família no mercado de trabalho.
É nesse último caso que a estatística ganha rosto.
Para muitas famílias, viver com até R$ 218 por pessoa, realidade de mais da metade dos beneficiários locais, significa escolher entre contas básicas. Quando alguém dessa casa consegue um emprego, o impacto não é apenas financeiro. É estrutural. A renda muda, mas muda também a relação com o futuro.
Chayene descreve esse processo como algo menos burocrático e mais humano. “Não é um programa mirabolante que a gente precisou investir. Foi uma organização do trabalho mesmo, de pegar na mão da família”, diz. Essa “organização” passa por ações simples, mas decisivas: montar currículos, orientar sobre comportamento em entrevistas, intermediar contato com empresas e até acompanhar candidatos presencialmente.
Há também um esforço silencioso de reconstrução subjetiva. “A gente está tendo que trabalhar até a questão da pessoa voltar a ter sonhos”, relata a secretária. Segundo ela, muitas famílias atendidas já não projetavam objetivos de vida, uma condição que, com o tempo, se perpetua entre gerações. O emprego, nesse contexto, não é apenas renda: é também perspectiva.
O trabalho não acontece só de um lado. Foi preciso, segundo a secretária, enfrentar resistências também no mercado. “Havia um preconceito muito grande, de que essas pessoas não queriam trabalhar. A gente teve que fazer um trabalho de desmistificação tanto com as famílias quanto com as empresas.” A mediação envolve desde ajustes de linguagem e comportamento até a sensibilização de empregadores sobre perfis que, muitas vezes, só precisam de oportunidade.
Nem sempre a primeira vaga dá certo. E isso também faz parte do processo. “Às vezes a pessoa não se adapta e já quer desistir. A gente conversa, entende o motivo e tenta encaixar em outra função”, explica. A lógica é de acompanhamento contínuo, não apenas inserir, mas sustentar essa inserção.
Apesar dos avanços, há limites estruturais. A questão das creches, por exemplo, ainda aparece como entrave em alguns casos. “Depende de outras áreas, é mais complexo”, reconhece. Ainda assim, a rede municipal tenta criar pontes para que mães consigam trabalhar quando surge uma oportunidade.
Sair do Bolsa Família, nesse contexto, não é perder um benefício. É ultrapassar uma linha invisível que separa a vulnerabilidade da autonomia possível. Os reflexos do programa também começaram a aparecer em outras áreas da assistência social. Segundo Chayene, a redução da dependência de benefícios não se limitou ao Bolsa Família. O município também observou diminuição na procura por auxílios eventuais, como a concessão de cestas básicas, indicando que parte das famílias passou a ter maior autonomia financeira após a inserção no mercado de trabalho.
Para a secretária, o resultado mostra que o impacto vai além dos indicadores oficiais. “Quando a pessoa consegue emprego, ela não melhora apenas a renda. Ela passa a depender menos de outras formas de assistência e ganha mais condições de sustentar a própria família”, destaca.
Ainda há muito caminho. Há 34 famílias na fila de espera e centenas que permanecem dependentes do programa. Mas os 29,56% que já deixaram o sistema indicam uma direção, mesmo que lenta e desigual, mas concreta.
Em cidades como Corbélia, a transformação social não costuma fazer barulho. Ela acontece aos poucos, no intervalo entre um cadastro cancelado e um contrato assinado, e, às vezes, no momento em que alguém volta a acreditar que pode querer mais.











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