As nuvens negras também passam

A mudança é a lei invariável da existência. Tudo passa. Para o “bem” e para o “mal”. Aceitar essa impermanência nos capacita a viver uma vida mais plena.

Dark storm clouds sky background with a straight dirt road.

Províncias gregas da Jônia, atual Turquia. Mais de quinhentos anos antes de Cristo. Sentado sob a sombra de uma árvore, o sábio Heráclito dava uma aula para seus seguidores. Apontando para um curso de água que corria mansamente, disse: “Ninguém pode tomar banho duas vezes no mesmo rio. Quando imergimos nele pela segunda vez, águas novas substituíram aquelas que nos banharam antes. É outro rio. Nós não temos mais os mesmos pensamentos que ocupavam nossa mente antes. Alguma coisa em nosso corpo também mudou. Somos outra pessoa”. E arrematou com a essência do que queria ensinar: “Tudo flui e nada permanece”.

Milhares de quilômetros a oeste dali, nos reinos indianos coroados pela cordilheira do Himalaia, outro mestre ensinava seus discípulos. Sidarta Gautama, nascido em berço de ouro, abriu mão dos luxos da realeza para peregrinar difundindo sua visão de mundo. “Nada é fixo, nem permanente. Tudo que existe é resultado de causas e condições. Quando elas mudam, tudo muda”, pregava.

Embora contemporâneos, Heráclito e Sidarta não se conheceram, nem sequer ouviram falar um do outro. Porém sua maneira de enxergar o mundo tem alguns pontos em comum. E suas premissas, mais de 2500 anos depois, permanecem muito válidas para aqueles que se dispõem a escutá-los.

A existência é uma eterna e irrefreável correnteza de mudanças. Os seres vivos nascem, crescem e perecem. As águas se condensam em nuvens apenas para cair como chuvas outra vez, e outra vez. Impérios militares e econômicos ascendem e caem. Até as imensas rochas estão se desfazendo lentamente em areia e pó. Tudo se transforma e finalmente se vai. É uma regra que domina desde as maiores estrelas da galáxia até nossos sentimentos mais íntimos.

Esse é um truísmo da natureza que, todavia, perdemos de vista com dolorosa frequência. Vivemos nos agarrando às coisas como se fossem eternas. Ficamos aflitos com a perda daquilo que gostamos. Maldizemos a injustiça de um universo que arranca de nós pessoas, sensações e objetos a que nos apegamos como se tivéssemos sobre eles um direito de posse eterno. Ou então somos tomados pelo desespero quando o prejuízo, a dor e a doença se fazem presentes. Olhamos para as nuvens negras que estacionaram sobre nossa cabeça convictos de que jamais voltaremos a ver o céu azul.

Tudo passa. Para o “bem” e para o “mal”. Quando nem mesmo o universo é eterno, é tolice nos sentarmos sobre os fugidios momentos de paz e felicidade como se ninguém pudesse nos mover desse lugar. As tristezas virão mesmo sem ser convidadas, mas acalma-se, pois elas também partirão uma hora. Negar esse fluxo é como erguer um castelo de areia na praia acreditando que ele resistirá à subida da maré.

Aceitar a impermanência das coisas não nos deixará menos propensos às dores do mundo, mas pode diminuir consideravelmente nossa ansiedade e poupar nossas energias físicas, mentais e emocionais. Assim teremos mais resiliência para resistir às adversidades que nos afrontam nessa vida. E mais serenidade para desfrutar plenamente nossos fugazes e preciosos momentos de prazer.

Fonte da imagem destacada: https://thespinoff.co.nz/business/27-05-2020/financial-hardship-a-reality-or-serious-risk-for-74-of-nz-households-survey/ 

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