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Ter e ser, nada a ver

Nossa sociedade nos estimula a confundir o “ter” com o “ser” pois vivemos em um sistema de relações humanas estruturadas por e para o consumo. Somos induzidos a definir o que somos pelo que temos ou deixamos de ter.

Não se exalte com nenhuma vantagem (ou atributo de excelência) que pertença a outra pessoa. Por exemplo: Se um cavalo, quando está exultante, disser: “Eu sou lindo”, isso é algo que podemos suportar.

No entanto, quando você está exultante e diz “Tenho um cavalo lindo”, você deve saber que está exultante apenas pelo fato de ter um cavalo lindo.

Então, qual é verdadeiramente sua qualidade?

O texto acima é um dos poucos trechos que sobraram da obra de Epicteto, pensador grego que viveu uns cem anos depois de Cristo. Tendo passado a maior parte de sua vida em Roma, Epicteto conheceu de perto a opulência e a ostentação. Como escravo de Epafrodito, o secretário do imperador Nero, ele cruzava todos os dias com algumas das pessoas mais ricas e poderosas do seu tempo. Isso lhe deu a oportunidade de perceber que, por baixo da pompa e da soberba, muitas delas eram pessoas vazias e desinteressantes.

Epicteto não afirma que a riqueza é um pecado capital, ou causa única da mesquinhez espiritual. Mas ele nos adverte do risco de cair na ilusão de que as posses têm o poder, por si só, de tornar alguém uma pessoa melhor. Se você tem um carro bom (na época de Epicteto o equivalente era o cavalo), alegre-se por ter um carro bom. Desfrute-o. Vá para onde quiser. Ande mais que notícia ruim. Pressione o acelerador e sinta a potência do motor. Aproveite a temperatura agradável do ar-condicionado ou, se preferir, abra a janela e sinta a brisa no rosto. Mas não se deixe persuadir pela tentação de acreditar que isso o torna um ser humano melhor do que aquele ciclista que você encontrou empurrando morro acima uma monark barra circular, freio de pé, velha e enferrujada.

Por outro lado, ter um saldo bancário com muitos dígitos e uma considerável lista de bens também não desabona seu caráter. Desde que você tenha adquirido tudo honestamente, sem explorar ou defraudar ninguém, não há nada mais justo que você aproveite do fruto do seu esforço com a alma alegre e a consciência tranquila. Nem todos os ricos são corruptos, assim como a pobreza não confere a ninguém um certificado de probidade moral automático.

O ponto que Epicteto levanta aqui é: desconsiderando todas suas posses materiais, conexões profissionais e status social, o que sobra de você? Olhando o interior solitário da sua alma, que qualidades encontra para se orgulhar? Que características de seu caráter e personalidade são dignas de mérito e despertam a admiração de outras pessoas (independente de quanto limite tenha seu cartão de crédito)?

Nossa sociedade nos estimula a confundir o “ter” com o “ser” pois vivemos em um sistema de relações humanas estruturadas por e para o consumo. Possuir as coisas e, tão importante quanto, mostrar para os outros que somos possuidores de coisas parece ser algo natural (mas não é!). Assim, somos induzidos a definir o que somos pelo que temos ou deixamos de ter. 

O convite de Epicteto é para rompermos com essa falsa noção. Aproveitemos para desviar um pouco o olhar do que nos é externo e buscar conhecer melhor os vícios e virtudes da pessoa que habita em nós.

Imagem destacada: http://www.elportaldelhombre.com/desarrollo-personal/item/643-soledad-elegida-placer-estar-uno-mismo

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