Paraná investe em tecnologias para acelerar a identificação de vítimas e desvendar crimes

No dia 25 de janeiro de 2021, 19 pessoas morreram e 31 ficaram feridas em um grave acidente envolvendo um ônibus de turismo que vinha do Pará, com destino a Santa Catarina. O ônibus tombou em um trecho da BR-376, conhecido com Curva da Santa, no Litoral Paraná.

A tragédia, que repercutiu nacionalmente, teve a imediata ação da Polícia Científica e da Polícia Civil do Paraná, que trabalharam contra o tempo para a identificação das vítimas fatais.

A Polícia Científica do Estado recebeu os 19 corpos e, destes, 17 foram identificados pela perícia necropapiloscópica da Polícia Civil. A metodologia consiste na identificação a partir da coleta das impressões digitais, e, posteriormente uma comparação com os padrões existentes. Neste caso, os dados foram confrontados com as digitais enviadas pelo Instituto de Identificação do Pará.

Apenas duas vítimas, que eram menores de idade, não possuíam Registro Civil (RG) no Pará, ou prontuário odontológico, o que dificultou a busca por este método. Os irmãos, um adolescente de 14 anos e uma menina de 2, foram periciados pela Polícia Científica, por meio de um processo mais complexo – o exame de DNA.

“Como parentes dessas crianças também foram vítimas do acidente, coletamos o DNA para verificar a identificação”, explicou diretor do Instituto Médico Legal (IML), André Ribeiro Langowiski.

O trabalho dos papiloscopistas das Polícia Civil e dos peritos da Polícia Científica garantiu que as vítimas fossem identificadas num curto período de tempo, em apenas quatro horas, e que suas famílias fosse acionadas.

“A papiloscopia é uma ciência forense que estuda a identificação humana. É uma das primeiras formas de perícia e obtenção de prova técnica desenvolvidas pela humanidade”, destaca Caroline Cezar de Moura Bueno Beckert, chefe da Subdivisão de Operações e Perícias do Instituto de Identificação do Paraná da PCPR.

“Nós utilizamos uma ciência de baixo custo, célere e altamente apurada na identificação das pessoas. Atuamos também na área criminal, levantando fragmentos de impressões digitais e afirmando se determinado indivíduo esteve na cena do crime”, explica Caroline.

NOVAS TECNOLOGIAS – Recentemente, o Paraná lançou o programa Sesp Coletas, um sistema que permite a automação e descentralização das pesquisas papiloscópicas, gerando um resultado mais rápido para a população. Na maior parte dos casos, as pesquisas não precisarão ser encaminhadas à unidade central, em Curitiba.

O Sesp Coleta possibilita uma busca direta de impressões digitais conciliando-as com um banco de dados, com aproximadamente 15 milhões de imagens registradas pelo Instituto de Identificação e o Departamento de Trânsito do Paraná (Detran-PR).

Os papiloscopistas da Polícia Civil fazem a coletas de impressões digitais em presídios, delegacias, hospitais, IML ou asilos, que posteriormente são inseridas no sistema, facilitando a busca por uma identidade.

“A evolução tecnológica permite que as respostas sejam mais rápidas, praticamente imediatas, trazendo maior certeza e segurança ao sistema. É um avanço ainda maior para os policiais de investigação e nas questões sociais, como, por exemplo, pacientes e falecidos não identificados em hospitais”, afirma o delegado Marcus Vinicius Michelotto, diretor do Instituto de Identificação da PCPR.

O papiloscopista coleta a digital e depois escaneia no programa. O sistema trará resposta da possível identificação, cabendo ao papiloscopista confirmar e emitir o laudo papiloscópico. Além disso, o sistema terá cópia virtual de todos os atendimentos feitos pela plataforma, dando segurança ao procedimento.

BANCO DE PERFIL GENÉTICO – DNA é o ácido que registra a genética dos seres humanos. É graças à ciência que uma identidade pode ser apontada por meio da metodologia de comparação.

A Rede Integrada de Bancos de Perfis Genéticos (RIBPG), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, foi criada com o objetivo de manter, compartilhar e comparar perfis genéticos para ajudar na apuração criminal e no processo de investigação em todo o Brasil.

O software do Banco Nacional de Perfis Genéticos é atualizado semanalmente com material colhido de presos que cometeram crimes hediondos, inclusive no Paraná.

Até a divulgação do último relatório, em maio de 2020, o banco contava com cerca de 82 mil perfis cadastrados, mais de 5,4 mil deles mapeados pela Polícia Cientifica do Paraná, posicionando o Estado como o quinto do País com a maior contribuição absoluta de perfis genéticos no Banco Nacional.

No Paraná, de acordo com o mesmo relatório, 65 coincidências de vestígios e nove coincidências de indivíduos confirmadas no Banco Nacional de Perfis Genéticos auxiliaram em investigações criminais no Brasil até maio de 2020.

Dentre os perfis genéticos mapeados no Estado, as situações mais recorrentes em que os materiais genéticos foram analisados referem-se a condenados, vestígios de crimes e restos mortais identificados e não identificados.

Foi graças a essa tecnologia que um dos crimes mais chocantes no Estado, e de repercussão nacional, foi solucionado. O caso da menina Rachel Genofre, que tinha apenas nove anos quando foi morta. Seu corpo foi encontrado dentro de uma mala na Rodoferroviária de Curitiba, em 2008. O autor do crime foi identificado 11 anos depois e condenado a 50 anos de prisão.

ROBÔ DE DNA – Outra novidade no Estado é o Robô de DNA, ou Plataforma de Automatização Starlet ID, que acelera a extração de amostras dos materiais genéticos relacionados a crimes, otimizando tempo na obtenção de perfis genéticos dos possíveis autores.

Na prática, o robô permite que o DNA de mais de 80 amostras diferentes seja extraído, simultaneamente, no mesmo período em que, antes, um único fragmento poderia ser processado. Com isso, a Polícia Científica visa analisar, em um ano, cerca de 2 mil vestígios de crimes sexuais ocorridos no Estado, cujas investigações ainda não puderam ser concluídas por não haver suspeitos para o confrontamento de DNA

O coordenador do Laboratório de Genética Molecular Forense e Científica da Polícia Científica do Paraná, Marcelo Malaghini, destaca que por ser uma plataforma de automatização ela permite acelerar grande parte do processo técnico analítico, um grande diferencial para todos os peritos criminais do Laboratório de Genética.

“Com esse ganho de tempo conseguiremos fazer as tratativas do que chamamos de backlog, que são os casos de vítimas de violência sexual que ainda não foram solucionados, como já aconteceu em algumas situações específicas, como o caso da menina Rachel”, explica.

FLATSCAN – Há, ainda, uma tecnologia que permite que médicos legistas, peritos e técnicos observem a trajetória de uma bala sem precisar analisar um corpo de forma invasiva ou expor a equipe técnica a raios magnéticos como os de um aparelho de Raio-X. Utilizado pela Polícia Científica do Paraná, o Flatscan diminui o tempo de uma autópsia e, consequentemente, a elaboração de laudos.

Trata-se de uma cabine de scanner, por onde o corpo da vítima passa, que faz uma “leitura”, revelando detalhes, inclusive em casos em que há avançado estado de decomposição. O Flatscan permite ao legista a análise de projéteis e suas trajetórias, da ruptura de órgãos e ossos.

Novos sistemas, projetos, tecnologias estão presentes também no trabalho de outras áreas específicas, como a balística forense, computação forense, psicologia e psiquiatria forense, química forense, da engenharia e tantas outras áreas do trabalho multidisciplinar e integrado das forças Policiais do Estado.

São profissionais que buscam a solução de homicídios e outros crimes aliando a tecnologia de campo da investigação e a ciência. O objetivo principal é dar respostas de forma mais ágil à sociedade e elementos para evitar a impunidade.

SÉRIE – Esta matéria faz parte de uma série de reportagens que abordam como o trabalho integrado das forças de segurança tem resultado na resolução de homicídios, prestando eficiente e rápida resposta à sociedade.

Da coleta de material na cena do crime, passando pelas investigações, entrevistas, troca de informações, banco de dados, testemunhas e o uso de tecnologia de ponta, até o desfecho de um homicídio, a série mostrou os bastidores desse trabalho, os agentes envolvidos e o comprometimento de profissionais dedicados a encerrar casos considerados complexos e sem solução.

As matérias foram publicadas às terças e sextas-feiras. A primeira detalhou o índice de resolução de crimes, que ultrapassou 100% em Curitiba, e a segunda mostrou como é o trabalho da primeira delegacia especializada do Brasil para investigar crimes sem solução, implantada na Capital.

A terceira reportagem tratou do trabalho, ações e investimentos que tornam a Polícia Científica do Paraná referência no País. A antropologia forense foi o tema da quarta matéria.

Fonte: AEN