O desejo do imperador


Qual é limite da ambição de uma pessoa? Somos todos movidos por nossos desejos e não há como evitá-los. Mas devemos ter cuidado, pois eles podem nos destruir.

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Aos trinta e oito anos de idade, Qin Shi Huang-Di já havia conquistado muita coisa. Derrotou seus maiores rivais, apossou-se das suas terras e  formou um império que correspondia a mais da metade do atual território da China. Estabeleceu as bases da administração pública e padronizou o sistema de escrita para todos os seus súditos, conseguindo, assim, não só manter a estabilidade do governo durante seus dias, mas também lançar as principais bases do que seria a civilização chinesa nos séculos seguintes. O jovem Qin expulsou os invasores bárbaros que atormentavam o norte e mandou erguer um extenso e sólido muro naquela fronteira (esse foi o início das famosas Muralhas da China). Seu leito era aquecido por belas mulheres, tinha filhos herdeiros, riquezas e glórias. Na época em que viveu, mais de duzentos anos antes de Cristo, muito tempo de antes de Roma se tornar um império, Qin Shi Huang-Di podia se gabar, sem risco de exagero, que ele era o homem mais poderoso do mundo.

Qualquer um pode reconhecer que ele tinha motivos suficientes para se considerar realizado e satisfeito. Qualquer um, menos o próprio Qin. Depois de consumar todas suas ambições terrenas, o primeiro imperador da China ficou obcecado com a ideia de se tornar imortal. Investiu largamente os recursos do Estado e enviou estudiosos para todos os cantos com a missão de encontrar um elixir que lhe concedesse a vida eterna. E enquanto aguardava com impaciência essa poção mágica (que obviamente nunca veio) o imperador seguia um tratamento prescrito para prolongar sua vitalidade: a ingestão diária de um comprimido de mercúrio. O que ele e seus médicos ignoravam, no entanto, é que o mercúrio é maléfico de várias formas para o corpo humano. A ingestão desse metal pesado destruiu os rins, os pulmões e afetou severamente o cérebro de Qin. Cada vez mais debilitado física e mentalmente, o imperador se tornou paranóico. Via conspirações e tentativas de assassinato contra ele em todo canto, na maioria das vezes ilusórias. Passou a descuidar dos assuntos do governo e, quando não estava enclausurado em seu palácio, saia em expedições para procurar o elixir da vida eterna. Numa dessas viagens, seu organismo finalmente sucumbiu à longa exposição ao mercúrio e Qin faleceu na estrada, aos 50 anos, enquanto era carregado em sua liteira.

A natureza do desejo

Podemos aprender muita coisa com a história desse indivíduo singular, mas quero provocar apenas duas reflexões nesse momento. A primeira é acerca da natureza dos nossos desejos. Somos seres desejantes. Mais do que a racionalidade, creio que é a presença constante do desejo que nos move e define. Os objetos variam de pessoa para pessoa, mas todos ansiamos por ter alguém ou alguma coisa. Nascemos desejando o seio materno e morremos desejando mais uma inspirada de ar. Nesse intervalo, nunca estamos plenamente satisfeitos. Sempre haverá alguma coisa que queremos a mais. Uma roupa, um eletrônico, um carro, uma casa, um emprego, um curso superior, um corpo saudável. E depois, uma roupa da última moda, um eletrônico mais moderno, um carro mais confortável, uma casa maior, um emprego melhor remunerado, uma especialização, um abdômen trincado… Tão logo um desejo é saciado, outro ocupa seu lugar. E aquele, ao invés de desaparecer, vai apenas para o fim da fila, esperando a oportunidade de retornar. É mais ou menos isso que Freud chamou de Id e identificou como uma parte constitutiva de nossa psiquê. Isto é, faz parte de nós, gostemos ou não.

Isso não é algo necessariamente ruim. Afinal, não existe vida sem desejo. Até as árvores anseiam por água e luz do sol. É isso que nos diferencia das rochas. O problema surge quando não compreendemos o lugar do desejo na hierarquia dos nossos sentimentos. Acomodado em seu posto de servo, ele presta serviços essenciais. Mas se ele se torna o senhor, pode acabar se mostrando um tirano cruel. Ansiedade, cobiça patológica, inveja aguda e endividamento crônico são apenas alguns do sintomas de uma pessoa que perdeu o controle de si para esse usurpador.

Sobrevivendo as próprios anseios

E isso nos leva a segunda reflexão: como não ser consumido pelos próprios desejos? Aqui a resposta é simples. Não sei. Ninguém sabe. Se existisse uma fórmula universal de lidar com isso, todos já estaríamos desfrutando de uma existência livre de angústias existenciais. As dívidas de cartão de crédito e cheque especial também seriam extintas. Mas a verdade, infelizmente, é que ninguém sabe ao certo como domesticar definitivamente os seus desejos. 

Por outro lado, não estamos totalmente às cegas. Ainda existem vários bons palpites por aí. O primeiro passo seria desenvolver o autoconhecimento.Você é o único que pode acessar em primeira mão a fonte dos seus desejos pessoais. Tente reconhecê-los, listados e então fazer uma autocrítica. “O que quero? Por quê quero? O que espero obter com a realização desse desejo?” E ainda outro questionamento, talvez o mais importante: “Quero isso por ser necessário e útil para mim, ou por que gostaria de ostentar para os outros? Continuaria desejando isso mesmo que ninguém viesse a saber que adquiri?” Coloque seus desejos contra a parede. Exija que apresentem seus argumentos e então pondere judiciosamente. Quantas dívidas e problemas você poderia ter evitado se tivesse tirado mais um dia para pensar antes de ceder à um impulso?

Outra atitude pertinente é aprender com o exemplo alheio. Algo que parece simples, mas é uma aparência de facilidade enganosa. A prova disso é a incrível propensão que temos de cometer os mesmos erros que já vimos outras pessoas fazerem (estou certo de que é desnecessário listar exemplos aqui, pois você já tem lembranças suficientes dos seus próprios deslizes). Talvez seja o nosso instinto de manada que nos impele chafurdar na lama onde já vimos os outros rolar. A questão é que estamos sempre olhando para os erros alheios, mas raramente fazemos isso associado ao autoconhecimento. Nos deliciamos em rir, dar palpites e fofocar sobre os pecados do próximo como se fôssemos seres incorruptíveis e angelicais que jamais fariam o mesmo. Mas quando prestarmos atenção aos desejos que motivaram o desacerto do outro, vamos identificar que ímpetos muito semelhantes agem sobre nós. Como diria o pensador irlandês Edmund Burke, quem ignora a história está condenado a repetí-la.

O desejo irrefreado é como fogo, e quem se entrega à ele torna-se lenha para queimar. Se ele não poupou nem o grande primeiro imperador da China, por que teria pena de nos reduzir à cinzas?

Fonte da imagem destacada: https://www.thechairmansbao.com/first-emperor-qinshi-huang/

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