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“Minha filha é jornalista”, Antônio Silveira, 55 anos vítima da COVID-19

Nunca precisou tanto da profissão do jornalista como nesta década, ela se mostrou primordial e indispensável na maior pandemia do século, e eu nunca me orgulhei tanto da profissão que escolhi. Quando dei início as reportagens sobre a pandemia aqui neste site precisei enfrentar não só a dor de acompanhar de perto cada registro de novo caso, ou nova morte. Foi necessário bater de frente com o negacionismo e as críticas.

As contradições, questionamentos e dúvidas dos leitores foram recebidas aqui na redação como informações que não deveriam faltar nas reportagens seguintes. E o objetivo era que você leitor não saísse daqui com nenhuma dúvida. Mas como não ter dúvidas em um momento em que a ciência do mundo inteiro se volta a responder questões que demorou séculos para serem respondidas?

É neste momento que o “faro”, feeling, sexto sentido, ou o que você quiser chamar, do jornalista, que entra à prova.

Eu tinha quatro anos e assistia ao Jornal Nacional quando perguntei a minha mãe o que precisava estudar para apresentar o jornal. E ela respondeu: “Jornalista”. Na minha pequenez já havia decidido meu destino, e quem me deu a mão pra alcançar o sonho foi meu pai. O Sr. Antônio Silveira não tinha a 4ª série completa, sempre trabalhou como caminhoneiro, mas a educação das filhas sempre foi prioridade. Pai de três meninas precisou suar sangue para conseguir entregar o que sempre teve como ouro, o diploma. E ele entregou às três: uma Assistente Social, eu Jornalista e a mais nova, e recém formada Dra. Biomédica.

Para ser jornalista precisa ser independente, e isso foi a primeira coisa que meu pai me ensinou. É preciso ter atenção, e isso ele tinha de sobra para me ensinar com a experiência da estrada. Também é preciso não desistir no primeiro não, e isso era o que mais ele me elogiava. “Eu gosto da Gane porque ela vai lá e faz”. Isso eu ouvi incontáveis vezes.

Desde que comecei na profissão o meu terror era noticiar a morte de algum familiar, e como ele era homem da estrada sabia que o risco era grande. Mas, foi na pandemia que precisei tirar forças de onde não sabia que tinha para poder noticiar a dor dele e dos outros mais de 330 mil vítimas.

Ele se foi no último dia 19 de março depois de lutar exatos 30 dias na UTI no Hospital Universitário de Cascavel. Conversamos ao menos quatro vezes com ele acordado, e extubado. Mas a COVID-19 tira aquilo que é mais sagrado para qualquer ser humano, de qualquer profissão, origem, cor ou raça, a esperança.

No domingo anterior a equipe levou uma TV na UTI para que ele pudesse assistir o jogo do Palmeiras, foi o último. Aquele domingo também seria o último que eu o veria acordado. Na quinta-feira, 18 a equipe permitiu uma despedida, já não havia mais o que ser feito. Quanta dor.

Naquele momento eu encostei em seu peito e queria mais uma vez, a última, escutar os batimentos da sua válvula de metal. Como uma bomba relógio, apesar de estar lá, a pressão baixíssima e a minha dor não deixavam escutar uma das batidas sequer.

E ali eu o entreguei. Gritei. Chamei por ele. Pedi sua benção. E fiz um juramento de que a minha profissão, que ele tanto se orgulhava, iria ser usada para garantir os direitos que lhe foi tirado. Ele não pôde ficar em casa, afinal, os serviços essenciais não pararam nunca, não receberam suporte nunca, não tiveram prioridade nunca, nem mesmo quando havia essa oportunidade com a chegada da vacinação.

A dor de perde-lo se mistura com a dor da impotência, da frustração em saber que a Europa, Estados Unidos e diversos outros países do Planeta já imunizaram até mesmo o público mais jovem.

E este direito lhe foi arrancado.

Ele se foi. E levou unicamente a imagem de Nossa Senhora da Salette nas mãos, eu mesma a coloquei na despedida ainda no hospital, fiz a enfermeira prometer que ela não ficasse para trás quando o fechassem no saco preto.

Levou a Santa, a cânula da tráqueo, que sequer é removida, e junto um pedaço de mim. Não teve direito a uma roupa, uma despedida digna de um gaúcho, porque se tivesse oportunidade seria uma bombacha que lhe vestiria.

O Toninho, Neri, Paraná como era conhecido pelos amigos, se uniu às outras vítimas e virou estatística.

E hoje, no dia do Jornalista, minha homenagem não é para mim, mas para ele que falava de peito estufado e boca cheia: “Minha filha é jornalista”.

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