Ingratidão


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“Não tenha Vossa Alteza em tão pouco estas terras o Brasil (…) como mostra ter em pouco, pois não provê nem me responde as cartas e avisos que há três anos lhe tenho escrito”, redigia um tal Duarte Coelho em 22 de março de 1548, na pequena vila que ele mesmo batizou de “Olinda”, construída sobre uma verdejante colina em frente ao mar.

Sua missiva era endereçada diretamente ao soberano de um dos reinos mais poderosos do mundo daquela época, D. João III, rei de Portugal. Embora se dirigisse diretamente à um monarca, Coelho não economizou na manifestação do sua mágoa pela “pouca estima” e ingratidão com que era tratado.

Desde 1509, quando partiu de Portugal pela primeira vez numa expedição marítima em direção à Índia, Duarte Coelho gastou os melhores anos de sua juventude no serviço da realeza de Portugal. Lutou contra africanos, franceses, indianos, malaios, tailandeses e chineses defendendo os interesses econômicos e políticos da Coroa portuguesa.

Quando finalmente retornou à Lisboa, em 1533, talvez esperasse enfim aproveitar tranquilamente da significativa fortuna que conseguira reunir ao custo de muito sangue e suor. Mas o rei ainda lhe reservara uma nova missão e o enviou para a América, acompanhado de toda sua família e posses, com a tarefa de colonizar um trecho do Brasil.

Quinze anos depois, quando o Duarte Coelho escreveu aquela carta, sua capitânia era única, entre outros onze lotes de terras cedidos para outros donatários, que havia prosperado. Deve-se à seu esforço o sucesso da implantação da economia açucareira no Brasil, que tantos lucros daria a metrópole portuguesa nos séculos seguintes.

Mas o sucesso da empresa não se refletiu em sua vida e economia privadas. Além do restante de sua juventude, vigor físico e saúde a colonização de Pernambuco custou-lhe praticamente todos seus recursos financeiros. Durante anos, Coelho escreveu ao rei pedindo algum tipo de ajuda. Fosse em forma de financiamentos, redução de impostos ou envio de recursos. Todavia, não há registros de que o D. João tenha deferido as solicitações ou, pelo menos, respondido uma carta sequer.

Enfim, Duarte decidiu ir à Lisboa para tratar pessoalmente com o rei, mas foi recebido com tanta frieza por D. João que, após a audiência, se recolheu em casa e dali poucos dias morreu de profundo desgosto. E essa foi “a paga que recebeu por seus muitos anos de sacrifícios e serviços”, segundo o relato de frei Vicente Salvador.

A ingratidão é dolorosa. Na economia dos sentimentos, é um dos piores calotes. E você, caro leitor, com quem se identificou nesse relato? E irresistível sentir uma pontada de afinidade pelo donatário de Pernambuco.

Arrisco dizer que sua mente está agora mesmo acessando lembranças de ocasiões em que foi tratado com desconsideração justamente por pessoas que você tanto ajudou nessa vida. Mas e das vezes em que você agiu com ingratidão, quantas você consegue recordar?

Nessa contabilidade, tendemos a considerar que nossa cota como vítimas é superior ao nosso débito enquanto vilões. O fato de ser difícil lembrar de nossas próprias “pisadas na bola” é um indício forte do quanto a ingratidão pode ser comum em nosso comportamento e de como ela opera.

Ela não é um ato deliberado ou reativo. É, com mais frequência, fruto do esquecimento, da desatenção, do alheamento a respeito do bem que nos fizeram e da importância da participação dos outros na nossa vida. Não brota do ódio, portanto, mas da indiferença. O que a reveste de um caráter ainda pior.

O donatário da história acima tomou coragem para externalizar seu desagrado, porém mais numerosos são aqueles que optam por remoer o ressentimento em silêncio.

Assim, a ingratidão persiste nesse espaço mudo entre um que não fala e outro não lembra. Onde todos nos identificamos facilmente com Duarte Coelho, enquanto ignoramos a frequência com que agimos como um D. João.

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