“Eu não gosto de política”

Acompanhar a política não é um hobbie, nem uma questão de preferência pessoal. É uma dívida com a história, necessidade presente e compromisso com o futuro.

“Eu não gosto de política”. Todo mundo já disse ou ouviu essa expressão pelo menos uma vez. É um mantra característico de nossos tempos modernos, pois só nesses nossos tempos ele faz algum sentido. Por milênios, desde as origens das sociedades, não fazia a menor diferença afirmar seu apreço ou desdém pela política, pois você não participaria dela de qualquer forma

O controle das cidades e dos estados estavam nas mãos de um diminuto grupo de famílias, que ditavam as leis e regras conforme seus próprios interesses e caprichos, e geralmente acabavam passando o poder para seus descendentes, geração após geração. Para o restante das pessoas, a grande maioria, o mais próximo de participação política que podiam desfrutar era o pagamento de tributos abusivos e o recebimento de algumas bordoadas, caso expressasse seu descontentamento com a servidão.

Dos cinco séculos de história desde a colonização do Brasil, quatro deles foram de concentração do poder político entre senhores de engenho, comerciantes de escravos e amigos do monarca (primeiro do rei de Portugal e depois do Imperador do Brasil). E boa parte do último século, os supostamente republicanos anos 1900, foi de permanência das mesmas antigas linhagens no poder, pelo coronelismo, pelo voto de cabresto, pelos autoritarismos civis e militares. Faltando apenas algumas décadas para a virada dos 2000, as mãos que redigiam as constituições da nação eram as mesmas que estalavam o chicote nos lombos do povo.

Mas as coisas mudam. Quando não são rápidas e violentas, como propunha a Rousseau, as mudanças acontecem de forma lenta e gradual, como agradaria à Edmund Burke. Chegamos no século XXI numa situação bastante diferente. É evidente que nosso regime político está longe de ser perfeito. Faltam ajustes aqui e ali. Todavia, podemos manifestar nossas opiniões sem medo de ser amarrado e chicoteado em praça pública. O voto é direito de todos, bem como é aberta a candidatura para os cargos públicos, independente de gênero, condição econômica e cor, coisa que até pouco tempo atrás seria impensável para mulheres, pobres e negros. Dá até para encher as redes sociais com reclamações contra o governo e ainda sonegar seus impostos sem acabar virando um novo Tiradentes (esquartejado por motivos parecidos).

E se essa mudança foi lenta, nem por isso foi natural e pacífica. Os direitos políticos que possuímos, e frequentemente desprezamos, custaram os esforços e a vida de muitas pessoas que ousaram se interessar por política quando isso era proibido e perigoso. Hoje é possível acompanhar as ações e decisões dos nossos governantes e fiscalizar a execução dos recursos. Podemos exigir que os agentes públicos cumpram com seu dever e trabalhem em benefício da coletividade, e também exigir que eles sejam punidos se usarem o poder para interesses particulares. E isso só é possível, repito, porque houveram pessoas no passado que gostaram da política mesmo com a ponta das espadas apontadas contra seu pescoço

Você pode gostar ou desgostar da política. Pode se manter informado acerca da atuação dos prefeitos, vereadores, deputados, presidente; e também pode escolher não dar a mínima importância para o que andam fazendo aqueles que decretam os limites da sua cidadania e que diariamente definem quais são seus direitos e deveres. Mas, gostando ou não, seria bom começar a lhe dedicar um pouco de atenção, pois quanto mais pessoas decidem não se ocupar dela, mais próximos estamos de tempos que, como no passado, nossa opinião particular não fará a mínima diferença.

Origem da imagem em destaque:https://www.camara.leg.br/noticias/627704-CONGRESSO-APROVA-PROPOSTA-ORCAMENTARIA-PARA-2020

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