Elogio à erva daninha

Thai farmer is hoeing his agricultural land

Dia desses fui capinar um lote. Isso não é uma metáfora. Fui carpir de fato. Chinelo no pé, boné na cabeça e, naturalmente, enxada na mão. Fazia sol forte e o solo estava bem seco após um longo período de estiagem. Apenas um pezinho de mato aqui e ali apontava seus brotos. Dias depois veio a tão esperada chuva e lá fui eu de novo. Mas que cenário diferente! Bastou uma semana depois da chuva para que o mato abandonasse toda a timidez. Ervas daninhas de várias espécies cobriam o chão como um tapete, disputando cada centímetro de terra úmida. A princípio me diverti raspando elas com a lâmina da enxada. Mas meu entusiasmo, como uma areia na ampulheta, diminuía à medida que o tempo passava. Como a Hidra da mitologia, para cada pé de mato que arrancava, parecia que outros três surgiam em seu lugar. Para resumir em uma palavra meu sentimento naquele momento por esses pequenos exemplares da nossa flora nacional: ódio.

Lembrei-me então das vezes em que tentei cultivar plantas ornamentais em casa. Uma roseira, algumas violetas, umas dioneias. Todas destinadas a encontrar uma morte precoce. Minha única experiência de sucesso foi com um cacto, e possivelmente só sobreviveu porque o plantei no jardim e o esqueci.

Passado o auge da irritação, pude fazer uma concessão às ervas daninhas. Diferente das plantas domésticas, essas ervas estão ali largadas à própria sorte. Lutam contra os tórridos raios do sol de verão. Suportam os ventos congelantes e as geadas de inverno. Hidratam-se somente quando chove e se alimentam dos parcos nutrientes que suas raízes encontram (nada de fertilizantes elaborados da floricultura). E mesmo assim nascem e crescem. São envenenados e dilacerados pelos homens, e então, quando todos acham que elas foram exterminadas, brotam novamente em toda sua exuberância indesejada.

A opinião alheia a chama de erva “daninha” (maléfica). Uma classificação que ela ignora e que, por isso mesmo, não dá importância. Ela, afortunadamente, é indiferente ao universo de opiniões humanas, onde as coisas e criaturas nunca tem valor por si mesmas e só são reconhecidas quando podem ser usadas em proveito de alguém. Ela não serve para decorar um escritório. Sua produção não impacta o preço do dólar. Seu nome não aparece entre os ingredientes de um prato gourmet. “Então por que ela existe?”, questionamos com a boca rançosa de desdém. “Só e unicamente por mim mesma. Pelo prazer de desfrutar da minha existência e seguir livremente meus objetivos”, talvez ela respondesse. Mas como não é capaz de falar, e muito menos faz ideia de que nos deva qualquer tipo de justificativa, ela se expressa seguindo os propósitos que a Natureza programou em seus genes, isto é, crescendo, verdejando e florindo na cara da nossa antipatia.

Não digo que me tornei um defensor da sua causa, mas devo reconhecer que as ervas daninhas me proporcionaram uma boa reflexão e algumas lições. Nas próximas vezes que lhes dar umas enxadadas, farei com mais respeito. 

Imagem destacada: https://br.freepik.com/fotos-gratis/agricultor-tailandes-esta-cavando-sua-terra-agricola_3763197.htm#page=1&query=enxada&position=3



Conteúdo Protegido
%d blogueiros gostam disto: