Cada um por si e… respeito por todos

Somos o centro do nosso universo, mas isso não nos faz necessariamente ególatras e narcisistas. Se compreendemos que todas as pessoas possuem seu universo particular de interesses e preocupações podemos estabelecer uma convivência madura e civilizada.

Um terremoto de magnitude 7 com epicentro no Mar Egeu deixou mais de 50 mortos e muitos feridos na Turquia e Grécia, no fim de outubro. Essa informação talvez não seja uma novidade para você, pois deve ter assistido aos noticiários, ou ouvido alguém comentar a respeito. Lembro de ter imaginado as pessoas em pânico, sangrando, chorando enquanto outras estavam soterradas sob os escombros dos edifícios. Imaginei também como os tremores devem ter afetado alguns dos muitos lugares históricos que existem naquela região. Por um momento, senti tristeza e compaixão. Apenas alguns minutos depois, porém, já estava completamente reintegrado à minha rotina. Naquela noite, dormi tranquilamente pois o sofrimento das vítimas já ficara muito longe da minha memória.

Três dias depois machuquei o ombro enquanto praticava esporte. Já tive lesões e fraturas anteriormente, mas essa me parecia diferente. Senti uma dor intensa e notei uma progressiva limitação dos movimentos no braço direito. Decidi procurar o médico na manhã seguinte para investigar o dano sofrido. Naquela noite não dormi bem. Conjecturas sobre qual seria o diagnóstico e quanto tempo levaria para me recuperar completamente da lesão ocuparam minha mente por longo tempo.

 Cinquenta vidas perdidas não foram o suficiente para eu derrubar uma lágrima, mas bastou uma dor pessoal, nada grave, tranquilamente tolerável, para afetar a qualidade do meu sono. Eu não sou um monstro moral. Acredito que a vida de cada uma daquelas pessoas valiam mais que dezenas de ombros lesionados. Mas estaria mentindo se falasse que aquela tragédia me afetou mais do que meu banal acidente esportivo. 

Antes que você, estimado leitor, lance sua justa reprovação moral sobre mim, convido que faça um exame de seus próprios sentimentos. Acaso os ataques e grupos extremistas na África fazem seu coração gelar mais do que ver seu filho chegando em casa com ralados e hematomas por ter caído da bicicleta? 

Não se trata de colocar esses casos em uma balança para julgar qual é o mais lastimável. Não é possível criar parâmetros de comparação entre Auschwitz e a morte do seu cachorrinho, embora é mais provável que você tenha chorado mais pela perda do bichinho do que pelas vítimas do Holocausto. O ponto em questão aqui é que não importa a magnitude do infortúnio, só somos afetados realmente, profundamente, por aquilo que nos atinge de forma direta. A dor na própria pele é sempre maior que o conjunto de todas as dores alheias no mundo.

Adam Smith, um pensador escocês que viveu há uns duzentos e tantos anos, acreditava que as relações humanas são baseadas em dois sentimentos: a empatia pelos outros misturada com o interesse próprio. Mas eles, esses sentimentos, não coexistem em proporções equilibradas. O interesse próprio está no centro e determina, na maioria das vezes, nosso comportamento. E ele se esconde até nas ações mais altruístas.

    Essa primazia dos nossos objetivos sobre os objetivos das outras pessoas é uma propensão natural do indivíduo enquanto ser vivo. Está nos nossos genes. Nascemos programados para garantir nossa sobrevivência, saciar nossos apetites e perpetuar a vida  – no amor dos pais pelos filhos também existe uma pitada de amor-próprio, pois nossos descendentes são, em alguma medida, uma extensão nossa.

    Somos o centro do nosso universo, mas isso não nos faz necessariamente ególatras e narcisistas. Se compreendemos que todas as pessoas possuem seu universo particular de interesses e preocupações podemos estabelecer uma convivência madura e civilizada. Descobrimos que nossos interesses particulares não são fontes de conflito, mas podem convergir em benefício de todos. “Eu te ajudo, você me ajuda”; “uma mão lava a outra”; “eu te forneço o que você precisa e você me retribui com o que eu quero”. É isso que Adam Smith chamava de princípio da “barganha”.

    Os problemas aparecem quando não reconhecemos os limites do interesse próprio. Eu sou o centro do meu universo de interesses, mas apenas do meu estreito e singular universo. De modo semelhante, cada uma das pessoas com quem eu me relaciono possuem seu próprio universo de interesses centrado em si mesmas. Para os outros, o meu interesse terá importância secundária quando comparados com os anseios pessoais deles. Assim como, para mim,meus objetivos são prioritários sobre os demais. Perceba que isso não significa que meus interesses sejam melhores do que os dos outros. Se eu me preocupo mais com os meus é somente por que eu sou o principal representante deles, afinal.

A egolatria e o narcisismo surgem quando imagino que eu deveria ser o eixo da atenção das outras pessoas que estão à minha volta. Quando rejeito a legitimidade dos desejos alheios e os considero inferiores. 

Quem adota essa visão de mundo vive contrariado. “Mas como aprontaram isso justo comigo?” Reação típica de quem aceitaria tranquilamente que tivessem aprontado com qualquer outra pessoa, menos com ela, que, como todos já deveriam estar carecas de saber, é um ser especial. 

“Você sabe com quem está falando?” Uma expressão endêmica da cultura brasileira, revela que o falante está convicto de que o universo dos seus interesses particulares tem o alcance da órbita solar. Enxerga os outros como pequenos e submissos. Não tem dúvidas de que, assim como os planetas são atraídos pelo sol, a razão vital das pessoas que estão à sua volta é lhe servir e contemplar sua grandeza.

Depois de todo esse palavrório, querido leitor, a que ponto quero chegar? A mensagem na verdade é muito simples. Fui eu que a compliquei com o vício da verborragia: todos temos nossos assuntos para cuidar e as minhas dores sempre vão doer mais em mim do que as dores do próximo, não importa a intensidade dela. Isso não nos torna automaticamente insensíveis e egoístas; somos apenas humanos. Mas se exigirmos dos outros que dediquem mais tempo e energia aos nossos desígnios do que aos deles, aí sim estaremos sendo pretensiosos e podemos acabar fazendo o papel de um grande babaca. 

Cuide bem de você mesmo, mas lembre que ninguém é obrigado a te mimar.

Fonte da imagem destacada: /https://www.ldsphilosopher.com/is-human-action-inherently-self-interested/



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