A traição da gabolice

Enaltecer exageradamente as próprias qualidades é a forma mais comum de expor seus piores defeitos. A gabolice torna qualquer pessoa chata, e também vulnerável.

Estou terminando meu terceiro copo de suco enquanto ouço o colega emendar uma frase atrás da outra. Há cinco pessoas na mesa, mas o colega está monopolizando o discurso faz mais de meia hora. Seu monólogo é pontuado apenas por algumas ocasionais interjeições de concordância (“ahã”, “certo”, “claro”) emitidas por aqueles que ainda fingem prestar atenção. Por longos e longos minutos o colega nos atualizou sobre as mais variadas dimensões de sua vida pessoal, incluindo tópicos sobre como ele é um galanteador irresistível, como ele é habilidoso na prática de um determinado esporte, como ele está se destacando no trabalho e logo receberá uma promoção muito merecida, e por aí vai…

Notei que expressões de desconforto moldavam os rostos da audiência à medida que nosso discursante elencava sua longa lista de predicados. Por alguma razão, temos uma reação natural de antipatia quando alguém desanda em gabolices em nossa frente. Entretanto, nesse dia em especial o arrazoado do colega me provocou uma mistura incomum de sentimentos: pena e medo.

A pena era motivada pela discrepância berrante entre a auto-imagem que ele propagava e o que todos os presentes, conhecidos de longa data, sabemos à seu respeito. Enquanto ele se jactava de sua concorrida vida amorosa, olhares trocados na mesa deram a entender que todos lembramos de sua notória falta de jeito com as mulheres. Algo não encaixava bem naquelas histórias, mesmo para quem conhecesse o colega apenas superficialmente. O seu entusiasmo com a promoção no emprego também soava inverossímil, pois corria o boato de que o nome do colega apareceria na próxima lista de demissões de sua empresa. Quanto ao seu desempenho esportivo não posso emitir opinião, mas ouvi de adeptos da mesma modalidade que a performance do colega está longe de ser impressionante.

Segurando o melhor que podia para evitar bocejos de tédio, esforçava-me para manter o interesse no que ele dizia. Evidentemente não por seu conteúdo, e sim por uma curiosidade pessoal. “Por que ele está fazendo isso se nem ele mesmo acredita no que está falando?”, ponderava eu. E então um outro pensamento surgiu em minha mente. Uma frase antiga. Palavras de Schopenhauer, um pensador alemão do século XIX. E elas foram ficando cada vez mais nítidas até serem praticamente audíveis. Era como se pudesse ouvir Schopenhauer falando do meu lado: “Afetar alguma qualidade, gabar-se dela, é uma confissão de não possuí-la”.

Eu suspeito que nosso colega não acredita em tudo que estava dizendo sobre si. E é exatamente por isso, por saber que não é alguém tão especial, que estava dizendo tudo aquilo. Um olhar mais atento logo perceberia as brechas expostas na fantasia que ele ostentava. Debaixo daquela máscara de arrogância se esconde uma criança insegura, carente e amedrontada.  Seus autoelogios e pavoneios são sua forma de implorar migalhas imerecidas de atenção. Em seu anseio por reconhecimento, acaba inspirando, quando muito, compaixão e pena.

E por que, então, também senti medo? Por perceber que não sou diferente dele. Assim como o colega, tenho minhas inseguranças, meus dilemas, meus assuntos internos mal resolvidos. Somos todos humanos, afinal. Quantas vezes terei eu representado o mesmo papel lastimável que ele? Que fragilidades estarei tentando esconder quando estou tentando chamar a atenção para alguma suposta qualidade?

Falar sobre nós mesmos é um ato de coragem, pois cada palavra que nos sai da boca desnuda uma parte da nossa alma aos olhos do público.

Fonte da imagem destacada: https://casnocha.com/2019/12/thinking-writing-bragging.html

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